Saturday, February 26, 2005

 

um fadinho á portuguesa

Depois de ler os chamados jornais de fim de semana, de trabalhar quase toda a tarde e de jantar sossegada e vagarosamente, como se impõe aos sábados, acompanhado pelas notícias das mortes, das violações, das detenções, e, das representações dos políticos de razoável má qualidade dos nossos largos de bairro, que são os partidos políticos. Por falar nisso, o PSD tem as suas marchas de S. Pedro, Santo António e S. Luís marcadas para Abril, e acho que o tema é: “os gladiadores”; porém, enquanto se prevê uma guerra do tipo Topo Gigio defronta Mickey sob a ameaça de Olívia Palito, Santana vai preparando o guião da pequena metragem “Zé do Telhado assalta Belém”; o PS terá a procissão de Sócrates lá para Março e anda tudo à rasca para saber quem são os anjinhos que vão pegar ao andor socialista; o Jerómino (é assim que dizem na minha aldeia) anda feliz com mais dois bónus no parlamento, mas triste porque ainda não encontrou forma de se livrar da personagem Odete, que segundo as más línguas vai ser contratada pela Nestlé para os rótulos dos Bledines, garantindo o consumo dos mesmos pelas crianças, na razão lógica directa dos maços de tabaco que dizem: Fumar Mata; o Louçã, sossegadamente, vai enrolando um charrito, a pensar na melhor ganza para criar as alegorias parlamentares adaptáveis a Sócrates, qual Platão; Paulo Portas esfrega já as mãos de liberdade para criar o Independente II, ou, assumir um concubinato com a menina Serra Lopes na liderança do referido pasquim, e mandar às malvas os gravatinhas que o co-incineraram. Ah! há ainda o fadista! o Nuno da Câmara Pereira, que enquanto frequenta umas aulas de boa educação e civilidade, prepara um fadinho à portuguesa para animar as sessões do parlamento onde chegou pela primeira vez! A democracia tem destas coisas...

Friday, February 25, 2005

 

ler é o melhor remédio...

Pois muito bem, enquanto espero pelo novo governo e me divirto com as jogadas palacianas do PSD, MM defronta FM (e não estamos a falar de estações de rádio), vou assistindo às vitórias do Sporting, vou trabalhando na melhor revista do mundo, e, vou lendo uns livros.
Hoje, à falta de notícias comentáveis, aconselho-vos um livro de António Ramos Rosa, esse expoente da poesia portuguesa que está por reconhecer. “Gravitações” é uma colectânea de belíssimos poemas que aconselho vivamente. Só para aguçar o apetite, aqui vão os dois primeiros versos do livro:

«Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra (...)»

Uma verdade para quase todos, não? É aqui que reside a universalidade dos poetas com direito ao epíteto. E são tantos os que ainda habitam o limbo...

Outro livro que estou a ler é de uma das mais reconhecidas escritoras galegas da actualidade – Lola Beccaria – e o livro é um romance inquietante e de linguagem totalmente crua, intitulado “Uma Mulher Nua”. (o preço dos afectos versus os preconceitos dos sexos)
Aconselho ainda mais dois livros que estou também a ler: as «Farpas» de Eça e Ramalho, e, «O espírito da letra», uma colectânea de ensaios de João Bigotte Chorão sobre vários clássicos da literatura portuguesa.

Tuesday, February 22, 2005

 

o perigo do c.u.

A ser verdade que o próximo governo vai introduzir na administração pública o chamado cartão único (c.u.), com toda a identificação de cidadania dos portugueses – BI, NIB, NIF, Segª Social, C. eleitor, carta de condução, etc – podemos estar à beira de grandes convulsões sociais… provocadas pela mania que os portugueses têm de abreviar designações. Assim, à primeira vista, não sei como reagiria se chegasse, por exemplo, à repartição de finanças para entregar o IRS, e um funcionário me pedisse: - Pode fazer o favor de me mostrar o C.U.! Ou então, imagino uma pobre sexagenária a chegar ao posto médico para marcar uma consulta, e a empregada, do outro lado do guiché explicar: - Para isso tem de me dar o C.U.; ou ainda o polícia de trânsito que depois de ver os documentos do veículo, pretende verificar a licença de condução, e vira-se para o condutor e pede: - Tem aí o seu C.U. para eu ver? E pior é se as datas não coincidem! Nesta situação, qualquer autoridade ou funcionário pode virar-se para o cidadão e dizer: - o senhor tem o C.U. fora de prazo, tem de actualizar o C.U. imediatamente. Ou então, e mais grave, é imaginar um estrangeiro em Portugal a desfiar uma série de documentos no aeroporto, e, o funcionário do SEF, muito atenciosamente diz-lhe com um sorriso nos lábios: - Em Portugal, apenas tem que mostrar o C.U. ! Finalmente, se o referido cartão único for de banda magnética, vamos passar a vida a passar o C.U. por uma ranhura!!!
 

Como Cavaco??!

Agora, há que esperar pelo governo rosa para comentar caras e programas. Não me apetece falar mais de eleições, a não ser que, afinal, o PSL lá emendou a mão e vai entregar o barco laranja a outros remadores. Mas que não dá ponto sem nó, lá isso não…
Hoje, entretanto, um amigo de direita com quem costumo ter conversas civilizadas, dizia-me isto: - Já reparaste que o Sócrates tem tudo para ser uma versão II de Cavaco Silva?! Se não, repara. Chegou à liderança do partido de supetão, tal como cavaco; passado poucos meses foi eleito primeiro-ministro, como Cavaco; é frio e determinado, como Cavaco, e, tem uma maioria no parlamento, como Cavaco; não é economista como Cavaco, mas é engenheiro e pragmático como Cavaco”!... Fico a pensar que é de todo expectável que seja mais humanista que Cavaco. A ver vamos…

Monday, February 21, 2005

 

The day after

O dia seguinte às eleições é, apesar de tudo, o mais indicado para falar delas e deles(os protagonistas). Normalmente há dois tipos de falantes e comentadores de bancada, mas ambos têm comentários muito amargos – uns deixam transparecer o amargo da derrota, outros deixam sentir o amargo aroma do champanhe da noite anterior. Como dizia o engº Guterres, é a vida...
E, para além da primeira maioria absoluta do PS, obtida por um líder com seis meses apenas, o que é obra (oxalá não seja pesada demais), há muito pouco para comentar, sem rodriguinhos. Como diz o meu puto, “é assim”:
- A direita portuguesa foi a banhos; a laranjolândia fechou para obras, e ainda por cima o porteiro não quer sair, porque sabe que cá fora há um batalhão de snypers políticos para o liquidar; o homem tem um jeitaço para o teatro, mas foi canastrão, não decorou o texto e depois todos contribuíram para a pateada de ontem, no final da primeira parte desta peça em três actos da política portuguesa; conhecida a derrocada, a direita teve dois comportamentos distintos: Santana trazia consigo “a coragem de fazer” mas não teve coragem para se demitir; Paulo Portas com muito menos escoriações resultantes do desastre, teve a dignidade de fazer! Portas preferiu sair pela porta da frente embora cabisbaixo, enquanto Santana Lopes preferiu sair de cabeça “levantada” pela porta das traseiras! – é esta a diferença. Apesar de não gostar de nenhum, é fácil perceber porque razão no CDS-PP não há Senhores Jardins e outras faltas de nível similares, e, porque razão no PSD há coisas do tipo Guilherme, Sarmento, Relvas e seus contumazes. O que ficou bem claro na noite de ontem e no dia de hoje, é que no PSD, em vez de se lamberem as feridas, vão-se completar os escalpes, isto se contabilizarmos os machados de guerra que já se desenterraram.
- A esquerda grita vitória onde há duas vitórias – a do PS absoluto e a do Bloco. Ambos têm nas mãos uma oportunidade sem desculpas para “fazer” e ficar no poder por algumas décadas, ou então, perder a cabeça e perder sem regresso nas próximas eleições...
- Um carinho especial merece o sorridente Jerónimo, que em maré de transferência para o Bloco, até ganhou mais dois deputados.
Mas há mais... mais logo.

Friday, February 18, 2005

 

a pata na poça, outra vez

A 48 horas das eleições legislativas, e pela segunda semana consecutiva, aquela senhora gordinha (acima do q,b.), feiozita e com voz de homem, que puseram à frente do semanário Independente, voltou a meter água! Se lerem o meu texto da passada semana acerca deste assunto, até percebem que eu não estou a defender ninguém, muito menos o engº Sócrates, que já tem 40 e tal por cento de portugueses para deixar de comprar o tal jornal. Mas, desta vez a coisa piorou, porque aparecem fac-similados documentos acusatórios com o nome do primeiro-ministro da próxima segunda-feira, garantindo o envolvimento do referido candidato no caso Freeport. Quando vi a manchete no quiosque, disse para mim mesmo: aí está a última borradela da campanha. – Porém, umas horitas mais tarde, a PJ lá veio desmentir categoricamente o envolvimento de Sócrates no caso, e, transformar em documento inócuo a folhinha do Independente. O que aconteceu ao Independente e à sua directora foi atirar com o excremento contra uma ventoinha… que é o mesmo que dizer, ao sabor da sabedoria popular, que a senhora I. S. Lopes “meteu a pata na poça”. É pena … e o semanário Independente perdeu, sabe-se lá por quanto tempo, 40 e tal por cento de potenciais clientes. Se fosse comigo, a administração punha-me na rua!

Thursday, February 17, 2005

 

uma "campanha alegre"

Ora vamos lá falar de política. A verdade é que continuo a ler o Ramalho, e todos os dias encontro frases e farpas escritas no século XIX que mais parecem fatos à medida para os nossos políticos de hoje!
Depois do debate a quatro para as legislativas, e, depois de ter apreciado o dia a dia da campanha política à portuguesa, sinto-me na obrigação de opinar e tentar levantar alguns dos véus que descobrem a nudez das ideias políticas dos políticos, bem como alguns truques mais baixos das mensagens que se pretendem passar. Ora vamos lá a pegar na lupa.
- No debate televisivo, os nossos candidatos a governar Portugal escreveram um guião completo para o “contra-informação”, vestindo fatos bons demais para os conteúdos que tapavam, e tiveram a seguinte prestação: Jerónimo de Sousa salvou-o a voz a tempo e nem mesmo o druida Panoramix lhe deu poção suficiente para salvar Santana dos votos que Sócrates contabilizou com essa fragilidade de Jerónimo, que não sabe ser personagem e é um homem de quem se gosta facilmente, julgo; Santana Lopes foi incapaz de esconder o incómodo que se sente quando se vai à primeira conferência para um divórcio, ainda por cima se um dos cônjuges (Paulo Portas) começa a ditar as partilhas do que quer para si – uma espécie de Hobbes de gravata preta, a puxar ao sentimento de Calvin; Paulo Portas passeou a sua infidelidade vestida de monge e recolheu-se em silêncios inteligentes que fizeram lembrar os filmes do Trinitá – o cowboy insolente, que punha todos à pancada e depois se sentava no balcão a ver as pedradas passar; Sócrates fez, finalmente, alguns “pause” na cassete e lá deu umas dedadas nos arguidos da direita, muito embora tenha deixado passar algumas respostas com que poderia ter ganho de forma indelével o debate, enfim, esteve muito Astérix, ao velho estilo de Cavaco; Louçã esteve completamente Obélix, e tudo o que era romano, que é como quem diz governante, voava. Foi mesmo o único que conseguiu entalar o Hobbes, tristonho e comprometido, entre os dentes, e deixar em cima do debate apenas um osso rapado.
Enfim, foi uma banda desenhada porreiríssima…
Falando mais seriamente acerca do próximo dia 20 de Fevereiro (faço anos, não se esqueçam…), sinto-me na obrigação de vos avisar que fui avisado de que os votos em Santana Portas, ou Paulo Lopes, ou é só Santana Lopes, acho eu, serão considerados nulos, isto porque são inconstitucionais! Porquê?!?!? – perguntam vossas senhorias. Porque só é possível votar em partidos com candidatos inteiros a primeiro-ministro, muito menos com meios candidatos, ou, candidatos unidos por meia união de facto. Eu explico: Santana Lopes tem um curriculum que permite diagnosticar perigosas probabilidades de apenas poder gerir meio Portugal, ou Portugal inteiro apenas por meio mandato! Senão vejamos: Foi secretário de Estado e saiu a meio; foi Presidente do Sporting e saiu a meio; foi Presidente da Câmara da Figueira e saiu a meio; foi Presidente da Câmara de Lisboa e saiu a meio; é primeiro-ministro e foi despedido com justa causa a meio. Como a Constituição não permite meios votos…

(Dizem as boas línguas, à boca piquena que Santana Lopes vai dividir-se no futuro entre as freguesias do “Kremlin” e da Kapital. )

Friday, February 11, 2005

 

política ou jornalista?

Em que ficamos, ó Inês S. Lopes, política ou jornalista?


Muito bem. Vamos lá a falar de política. Estava a ver se escapava à tentação de perder algum tempo a comentar coisas sem grande interesse porque protagonizadas por pessoas normalmente pouco interessantes. E depois, a gente tem que olhar pelo futuro dos putos, não vão eles enveredar pela política e terem um estatuto social abaixo do da prostituição! Bom, decidi escrever sobre as nossas campanhas e políticas depois de ter assistido às declarações daquele senhor anafado da Madeira, que leva boa vida à custa de todos nós e das zonas francas e dos paraísos fiscais. Acho mesmo que a sua única característica genuína é mesmo a boçalidade inconsciente, e a sua grande qualidade é conseguir pôr os portugueses a rir com os seus disparates. Ao tempo de Herculano, este seria uma outra espécie de Bobo da corte.
Entretanto, depois da onda de calúnias sobre a opção sexual do engº Sócrates, surge hoje o caso Freeport sugerindo um “crime político” de Sócrates enquanto ministro de Guterres. No mesmo dia, na mesma manhã em que o Independente lança esta atoarda em primeira página, o Procurador Geral da República vem a público, oficialmente, dizer exactamente o contrário! E agora? Estou à vontade para comentar esta questão por duas razões de peso, a saber: primeiro, porque até nem gosto do engº Sócrates, embora concorde que é o único minimamente decente para ser primeiro-ministro de Portugal, e segundo, porque sou jornalista há muitos anos e não entendo que a directora do Independente alinhe nesta política de queima-gente, na primeira página, e escreva um editorial perfeitamente ridículo a desculpar-se do indesculpável, na última página. Todavia ficam-me algumas dúvidas, a saber: Se a função maior de um director de um órgão de comunicação social é defender a instituição, então, o que ganhou o Independente com esta notícia? Ou, se o objectivo é claramente político, é o engº Sócrates que fica a perder, ou, é o dr. Santana Lopes que fica a ganhar? Por acaso, penso que é exactamente o contrário (o povo português é sábio...) Fico é triste, porque a nossa profissão merece ser melhor dignificada! Mas, infelizmente, há de tudo...

Tuesday, February 08, 2005

 

a morte da Laica e a puta da vida...

Numa casa onde há seis cães em convívio diário connosco é muito mais fácil perceber o verdadeiro sentido da lealdade, da amizade e da cumplicidade consentida. É ainda mais claro perceber porque razão se diz que quanto mais se conhecem os cães, menos se gosta de certos humanóides. É com eles que mais me agrada partilhar os ruídos do meu silêncio, e faço-o todos os dias com a satisfação de quem troca palavras por olhares ou obediência por afectos. De entre todos os cães de minha casa, a Laica é, sem dúvida, o exemplo do que podemos chamar “uma vida de cadela”. Nascida de um cruzamento de Doberman com um Pastor alemão, grandinha, portanto, a Laica, como única fêmea da matilha, pariu durante anos a fio crias anuais de onde saíram todos os cães da casa dos últimos quinze anos, e mesmo assim, continuou a ser a melhor guarda dos seus filhos e da sua casa, bem como a melhor ouvinte dos seus donos; era aquele tipo de cadela com quem se desabafam inconfidências que se não podem desabafar com as pessoas, para se não perder aquela réstia de liberdade que é constituída pelos pensamentos que nunca dizemos a ninguém e que apenas desabafamos com o espelho da casa de banho, com o volante do carro, com as pedras da calçada, com a curta vida de um cigarro, ou, com a Laica.
A noite passada, depois de aturar, sentado no sofá da minha modorra, políticos a ladrar ao voto, e depois de exercitar a líbido da minha memória estimulada pelo carnaval do Brasil, depois do último cigarro, ouvi alguns latidos da Laica, que imaginei com frio ou incomodada por algum dos garanhões da casa; fechei a televisão, escorropichei o copo, peguei no Camilo e fui-me para dentro de lençóis. Esta manhã o latido da Laica voltou a chamar-me, e eu fui à conversa com aquela fiel confidente. A conversa já só foi de olhares e de tratamentos de urgência que a Laica mal consentiu, admitindo o momento da partida e olhando-me como que a pedir alguma dignidade aos homens, e garantindo-me que as minhas confidências partiam consigo, até que um dia destes a gente provavelmente se encontre. Carinhos e palavras foi o pobre contributo que pude dar a esta minha amiga, antes da viagem a que estava destinada. A meio da tarde de hoje fui de novo para junto dela, na expectativa de a ver melhor; estava deitada de forma aprumada a olhar para mim, o mesmo olhar de sempre, mas frio e distante como são todos os olhares da morte. Deixei-me escorregar pela parede da tristeza e dei-lhe um último abraço, que ela já não sentiu, ou talvez sim.
Entretanto, os telejornais não noticiaram a morte da Laica, mas mostraram os políticos em pleno carnaval eleitoral, duas esposas dondocas a fazer esqui na Serra da Estrela, uma passagem de modelos Versage, 1300 acidentes de automóvel, um hipócrita e falso acordo de paz no Médio Oriente, o Miguel Sousa Tavares com um fato novo pago com os duzentos contos por dia que o Equador lhe dá, cinco violações, três casos de pedofilia, quatro de suborno, e, claro, futebol, muito futebol com futebolistas e dirigentes, alguns dignos do olhar da Laica, outros demasiado parolos exibindo o seu rolex e o seu Audi modelo Pato-Bravo. Amanhã, provavelmente, os telejornais não vão ser muito diferentes – mais morte menos morte, mais cu menos cu à mostra, mais promessa menos promessa eleitoral, mais golo menos golo, mais escândalo menos escândalo. Eu, fico com o volante do carro, com o espelho da barba, e com o olhar dos outros cães. A Laica vai a enterrar, e assim continua a puta da vida.


Saturday, February 05, 2005

 

o espírito da urna

O espírito da urna

« ... O deputado é um empregado de confiança. Somente a sua “nomeação” não é feita por um decreto nitidamente impresso no “Diário do Governo”. O processo da sua nomeação é mais complicado. É por meio de votos, os quais são tiras de papel, onde está escrito um nome, e que se deitam no Domingo, numa igreja, dentro dumas caixas de pau, que se chamam romanticamente “urnas”, entre as genuflexões de beatas que entram para a missa, e a campainha aguda do sacrista que tange ao levantar da hóstia! Alguns homens graves, de camisas lavadas, estão em roda da urna. Aqueles homens chamam-se “a mesa”. São eles que com gesto cívico e todo cheio do espírito das instituições, metem gravemente o papelinho branco – o voto – dentro da caixa – a urna.”
(in As Farpas de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão – 1871)


É inevitável falar de política e de eleições, a meia dúzia de dias de ir às urnas. Poderíamos falar de candidatos a deputados ou a ministros, das suas qualidades ou debilidades, das suas promessas e de alguma pobreza dos seus discursos e atitudes; poderíamos falar dos cartazes gigantes espalhados pelo país, das suas mensagens e do seu melhor ou pior gosto, ou ainda dos comícios contabilizáveis, tipo claques ou “torcidas” futebolísticas, tipo “Diablos Socráticos” desafiam “SuperSantanetes” ou “Ninjas Paulistas” confrontam “Fúria Bloquista”, e assim sucessivamente; poderíamos ainda falar de problemas concretos do país e das regiões em particular, mas quem nos ouviria? Os portugueses requisitam afanosamente o debate das ideias e das soluções para os problemas graves de Portugal, mas não lhes ligam muito. Não é aí que está o “share” dos candidatos e dos partidos de um país que não hesitaria em eleger, antes de mais, José Castelo Branco, Cinha Jardim, ou Alexandre Frota para o “seu” Parlamento.
É mais importante falar de casamentos homosexuais, de quem vaia a cama com quem, das declarações de IRS dos candidatos, de quem aborta ou não aborta, de quem se senta ao colo de quem, ou, quem veste os fatos e as gravatas de quem. Os 500.000 desempregados que se lixem, os 50.000 professores mal colocados que vão pentear macacos, as vítimas dos incêndios por indemnizar que comam cinzas e durmam ao relento, os soldados da GNR no Iraque que se amanhem com umas bombas, etc, etc...
Entretanto, em cada círculo eleitoral, consoante a expectativa das sondagens, começam a perfilar-se os candidatos à sopa dos potes de nomeação regional partidocrática, onde, por tradição, se condimenta o caldo com doses de mediocridade dos “meirinhos” ávidos de um bom carro preto conduzido por um branco...
Tudo isto se vai decidir nas urnas no próximo dia 20 de Fevereiro. É assim há muitos anos, desde que há eleições em Portugal. Basta ler “As Farpas” de Ramalho e Eça, escritas há 134 anos, a propósito das eleições para a Câmara de Deputados de 1871:

“... A urna, deve dizer-se, afecta várias formas, segundo as freguesias: há urnas da forma de caixas de açucar, da forma de vasilhas, da forma de chávenas, etc. Os candidatos dizem sempre, no último período dos seus manifestos, transportados em furor patriótico:
- Cidadãos, à urna!
Mas é puramente uma denominação sentimental. Para serem exactos, reais, deveriam dizer em certas freguesias:
- Cidadãos, ao caixote!
E em outras:
- Cidadãos, à vasilha!”

Sirvamo-nos da universalidade destes autores para reflectir e acrescentemos:
- Cidadãos, ao pote de Bisalhães!

Lá para o dia 21de Fevereiro, logo se provará o sabor do caldo. Apaladado para uns, amargo para outros, uma certeza podemos ter, não chegará para todos, e continuarão a beneficiar do caldo os que tiverem maior e melhor colher.

josé braga-amaral

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