Sunday, March 20, 2005

 

A caligrafia da neve

Do alto das margens surgem as surpresas escondidas no percurso de segredos que é o vale do Douro. Quando se desce da Pesqueira para o lugar da Valeira, passa-se ao lado do eremitério de S. Salvador do Mundo, onde de Verão ou de Inverno se ouvem os gritos surdos da história do naufrágio do Barão de Forrester, lá no fundo, na garganta de rio onde se inscreve na escarpa a visão telúrica da fronteira entre o país vinhateiro e o Douro selvagem.
Um dos segredos é desvendado pelo Inverno. Fevereiro frio adentro, desce-se até ao rio sob a brisa fria que vem de cima, atravessa-se a barragem com a certeza de que se passa para outro hemisfério, com os olhos postos no planalto de Ansiães, a caminho de Carrazeda. À medida que se sobe o frio aumenta e a escrita interminável das águas, sobre a tela do tempo, dá lugar à caligrafia da neve sobre a pele dos montes pautados pelas famílias de pinheiros e pelos bardos de vinha. A luz reflectida pelo branco sobreposto às rugas da vegetação parece iluminação de lanternas vivas para almas às escuras.
Chega-se a Carrazeda de Ansiães com a sensação de entrar no espaço de uma vila de brincar coberta de algodão doce. Há ruas salpicadas de olhares etéreos, observando o barulho da neve a cair sobre o espanto de espíritos, aquecidos por este capricho da natureza. Apetece ficar e sentir o calor deste abraço branco e quente.


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