Wednesday, March 23, 2005

 

o abraço dos pastores de versos

Depois da neve, com as amendoeiras e os pessegueiros em flor, sobem o planalto de Ansiães os pastores de versos. Vêm dos quatro pontos cardeais com a alegria de quem traz a alma escondida em páginas, assumindo a condição de poetar, olhos nos olhos com os confrades que se confessam à volta da mesma fogueira. São poetas populares que respondem à sineta cultural de Carrazeda de Ansiães, que há já seis anos, a 21 de Março – dia mundial da poesia – chama à praça homens e mulheres que têm o hábito de ditar o peso ou a leveza dos dias para cima de folhas brancas. Vêm de rimas na boca, ansiosas por sair, mas depois de um dia inteiro de poetas vestidos a rigor, partem de novo para o seu covil, com dúzias de abraços, porque, dizem alguns, os abraços são mais importantes do que a poesia.
Os culpados são Eugénio de Castro e Olímpia Candeias, a alma e o motor da Câmara Municipal, que não só são Presidente e Vice-Presidente da autarquia, mas também são gente de cultura!
Este ano, para redimensionar o VI Festival de Poesia Livre, convidaram alguns dos chamados “eruditos” escribas da poesia dos anos 90 – Marília Miranda, Jorge Velhote, Mário Mendes, Maria José Quintela e até eu – que aí foram para conviver com Carrazeda e mais uma dúzia de poetas da região. Abriram-se os livros ao sabor de febras com poesia e vento, pela manhã. Na biblioteca municipal os pequenos do ensino básico brincaram com os poetas e cantaram teatros de brincar com a poesia e a música da Marília. Ao fim da tarde, no auditório, a questão era mais complicada: Afinal, o que é isso da poesia? – perguntava-se à poesia. Cada um à sua maneira, cada um lhe acariciou a pele, e todos se ficaram com o prazer de a despir e vestir a seu bel prazer, com o fascínio de saber que não haveria resposta que se embrulhasse em papel de laçarote.
Ao longo do dia, entretanto, todos os poetas populares puxaram das suas caixinhas de jóias para mostrar, e disse-se muita poesia e muitos versos, alguns bem puros porque realmente populares, e muitos nomes ficaram na memória dos nossos novos amigos – Alzira Borges, Carlos Samões, Flora Teixeira, João Cardoso, Joaquim de Matos, José Corte Real, Rui Sampaio, Sandra Lourenço e Marcolino Fernandes, o professor-cesteiro que veio de Miranda do Douro carregado de cestas, dentro das quais trazia a alegria para todos, poesia e música mirandesa para nos calar sorrindo.
Só tem que ficar vaidosa a poesia, que apareceu à festa com sorrisos cor-de-rosa, porque depois dos versos e dos abraços a tertúlia continuou até que o Sol a calasse por mais um ano.


<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?