Saturday, July 22, 2006

 

entretanto, no dia seguinte

Há expressões para todos os gostos, pinturas da mais fértil imaginação, bandeiras e cachecóis de todas as formas e feitios, fés e devoções, enfim, euforias de todos os graus.
A D. Amélia apareceu-me há dois dias, ao jantar, com uma Nª Sª de Fátima em punho, lavada em lágrimas, a garantir o apuramento da selecção para a final deste Mundial 2006; o Silva do rés-do-chão põe adesivo na boca da família durante os jogos, para poder ouvir na perfeição os seus próprios impropérios, que dirige ao écran da televisão na esperança de ser ouvido pelos árbitros e pelos jogadores adversários; a La Salete comprou um “top” para levar para o Castelo do Queijo, suficientemente reduzido, de forma a que não se percam de vista as cinco quinas à volta do umbigo e as pinturas de guerra desenhadas nas “catarinas”; o Nelo da barbearia faz cortes “máquina um” com os números dos jogadores preferidos rapados nas carecadas; a Maria Augusta, ultimamente, leva todas as semanas para a venda da feira, a coqueluche do momento – cuequinhas de senhora com a fotografia do Cristiano Ronaldo encostada na “pombinha”; os deputados da Nação pararam de “deputar” para ver a selecção; os médicos pararam de medicar; os trolhas entalaram a colher da massa entre dois tijolos, até ao fim do jogo; as ruas esvaziam-se para respirar, enquanto pelas janelas saem, ou entram, os gritos estridentes das famílias, ou, dos mundialódromos: Gooooooooolo, Portugaaaaal.
Nos dias seguinte às vitórias, pelo menos até hoje, vendem-se jornais para mais tarde recordar, reduz-se a 30% o tempo útil de trabalho nas empresas, e, abrem-se enormes sorrisos perante as “aparentes” dificuldades do dia-a-dia. Portugal anda adormecido e feliz, pelo menos “aparentemente”, permita-se a imagem, embebedado de felicidade gaseificada, sem pensar no dia seguinte. É claro que é óptima a auto-estima colectiva que nos provoca o sangue português a correr e a marcar nos relvados do Mundial 2006; não me parece é que sejam muito saudáveis os exageros que se vêem e relatam como tristes façanhas dos fanáticos jogadores de bisca lambida, também treinadores de bancada, que chegam a tirar da boca o pão para ir à Alemanha comer a relva.
Em vésperas do encontro com os “boys” que passeiam a arrogância de Sua Majestade, não é previsível um desfecho final para os nossos rapazes, mas há algo de que podemos ter a certeza, a festança, mais tarde ou mais cedo, vai acabar, e no dia seguinte... bom, no dia seguinte, independentemente dos resultados, como fica este nosso Portugal? Tiram-se as pinturas, certamente, lavam-se as “catarinas “ da La Salete, a D. Amélia arruma a santinha no gavetão da roupa interior, o Cristiano Ronaldo desaparece das cuequinhas desbotadas por tanto suor português, e, os portugueses deixam de dizer “Somos os maiores” para passar a dizer “o país está uma merda”, o governo fica outra vez sem biombo e terá que se tapar rapidamente com qualquer coisa que adoce o bico às multidões que agora fritam pelos “heróis do mar...”, e, passarão a gritar “Gatunos, filhos da p... que nos levam a massa toda nos impostos...”.
Mas nem tudo é mau, sejamos justos, o “carnaval da bola deu de comer a umas quantas famílias, aumentou consideravelmente o lucro das centrais de cerveja, e, o mais importante, a família do Silva vai poder voltar a conversar, mesmo que seja de futebol.


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