Sunday, August 13, 2006

 

Tristezas para o jantar

À semelhança de uma boa parte dos portugueses, tenho por hábito jantar acompanhado pelo telejornal das oito da noite que se vai repetindo nos vários canais de TV. Nestes últimos dias de Julho fixei três situações que não posso, não podemos nem devemos deixar de comentar.
- Entre a sopa e o bife o apetite foi-se! Eram cinco ou seis libaneses mortos, dos cerca de sessenta civis que os mísseis israelitas mataram em Canaã, cobertos por um plástico que deixava perceber o ultimo olhar de uma criança que parecia querer perguntar: Porquê? Na imagem seguinte uma mulher já sem lágrimas encostava ao peito um homem banhado em sangue – qual Pietá do Líbano – derramado em nome do maior negócio do mundo – a guerra - , enquanto uma senhora, na imagem seguinte, muito bem vestida e de penteado moldado a cinzel, se mostrava horrorizada pelo sucedido – Condoleza Rice, em tournée de charme, mas ao longe, parecia querer dizer: Desculpem, mas não foi para isto que nós apoiamos os israelitas, de facto o armamento foi… para mais tarde o porta voz da Casa Branca vir dizer ao mundo que já puxaram as orelhitas a Israel, mas não podem exigir o cessar fogo, até porque o petróleo precisa de aumentar de preço para os americanos recuperarem os gastos com o Iraque. Entretanto, a guerra continua e a criança de Canaã morreu sem saber porquê.
- Entre o bife e a sobremesa, aparecem-nos os lucros da banca. Os quatro maiores bancos privados de Portugal apresentaram no primeiro semestre um lucro líquido de 957 milhões de euros (quase 200 milhões de contos)! E perguntamos: Como? Quer dizer, e a crise? Mas se os portugueses não têm dinheiro, as fábricas fecham ou fogem de Portugal e deixam milhares no desemprego e as empresas abrem falência, com que dinheiro fabricam estes senhores tamanho lucro?! Ganham-no à custa do dinheiro de quem? No estrangeiro em investimentos e em Portugal em comissões sobre os desgraçados dos clientes? Ou ganham-no à custa da mão de obra barata e da exploração daqueles rapazes bem vestidos de fatinho inglês e gravata brilhante que trabalham até cair para o lado a troco de mei dúzia regalias bancárias, só porque o sonho deles era aquele fato, aquela gravata e um carro da classe média-alta? Bom, que os bancos ganhem dinheiro, tudo bem, mas que o façam em Portugal, com o dinheiro dos portugueses. Ainda por cima, como prémio para os meninos bem comportados que tiraram boas notas, o Estado baixa-lhes a taxa de imposto para 17,2%! Será que o objectivo é transformar o nosso país num novo e real parque Disney, com Tio Patinhas, Irmãos Metralha e Professor Pardal, enquanto aqui os Mikeys e as Minnies dão o coiro ao manifesto e entregam 19% trimestralmente para a piscina do Estado.
- Estava eu a dar o último gole no copo de vinhinho e aparecem os concertos de Verão. Na Zambujeira do Mar vão vender-se pelo menos 25.000 litros de cerveja e outros tantos de águas e refrigerantes, para satisfazer umas centenas de bezanas e uns milhares de ecstazys! E pergunto eu: então e o vinhinho português que está nas adegas à espera dos festivais? Pessoal, não vai um branquinho fresco, maduro ou verde, ou, um Porto Tonic com muito gelo? Ainda por cima o vinho já está fermentado e a cervejola acaba o serviço no sangue daqueles que à vinda aumentam o índice de mortalidade nas estradas. Jantar destes caiem tão mal! Decidimos mesmo fechar a televisão e tomar o digestivo necessário a estas paragens de digestão à portuguesa, não fosse aparecer um incêndio, para “pôr a cereja no bolo


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